Algo que sempre me faz refletir são as relações humanas. R-E-L-A-C-I-O-N-A-M-E-N-T-O. Tentarei ser mais generalista, pensando em todas as possibilidades do relacionar-se (família, amigos, amores) e porquê o relacionamento é tão amedrontador, apavorante para muitos.
Tenho de confessar que sou alguém que necessita do outro, o sorriso, as ideias, a personalidade com suas nuances e características que tornam cada um de nós (NÓS, VOCÊ E EU) especiais... somos especiais. Creio que todos tem o que contribuir, ensinar, aprender e reciclar-se, reinventar-se, mudar... todos podemos mudar. Não precisamos, não devemos viver num mundo frio e solitário, onde nos afastamos das pessoas, num "planeta" só nosso, que afasta o outro, pessoas como nós e que podem nos tornar melhores. Luto diariamente para que a dor, o que não recebi e que me era devido, a apatia, a ingratidão, o egoísmo, não me afetem, não me contaminem. Não tem sido uma luta fácil. Muito mais cômodo é culpar todos (Deus, minha família, quem me enganou, mentiu, desprezou, foi covarde) e seguir as multidões de maneira automática, débil e desumana.
Pode pensar... "minha família, não tenho amor, carinho, afeto que tanto precisava". Bem, minha relação familiar certamente não é o modelo, se é que existe modelo de afetividade. Minha mãe que amo, sempre teve uma relação muito afastada, fria e muitas vezes cruel para comigo. Sendo criança não se entende por que se recebe determinados tratamentos. Hoje entendo que ela não teve afetividade de seus pais que a entregaram a tios e nunca se preocuparam com seus sentimentos. Que sou resultado de uma desilusão amorosa que teve, de alguém que amava muito (meu pai que não tenho relação alguma) e que planejava dividir a vida. Também que a vida, a necessidade da sobrevivência nos tornam amargos, duros, coração embotado e afetividade limitada, para não dizer nula. Juntando o não entender por que me tornei o "culpado" de suas frustrações e todas as palavras duras, cruéis recebidas, houve um episódio, que tornou tudo mais esmagador. Passei por abuso sexual. Uma criança de 4 ou 5 anos certamente não compreende o que houve, mas somatiza, traumatiza tal violência. Esse certamente é mais um componente devastador na composição do seu eu, do que deseja e de como se vê. Auto-estima? Podem imaginar é algo difícil de se construir.
Então lendo isso pode pensar... "tadinho do Mark... nossa que barra... quanta dor!". Verdade a dor proporcionada por tudo isso é imensa. As feridas cicatrizam-se, mas a um simples NÃO da vida, a uma normal ingratidão tão peculiar a todo ser humano, as feridas teimam em abrir e sangrar. O que me ajudou a não me tornar amargo, egoísta e indiferente para com a dor de outros semelhantes? Como diz a frase escolhida para este "confessionário" de hoje, do brilhante Saramago, foi justamente não me impor o pior dos castigos - ESCOLHER A SOLIDÃO - manter-me sozinho. Por formação também religiosa, aprendi com pessoas virtuosas que existe muito mais felicidade em doar, em amar mesmo quando não é cômodo, prático e recompensador. Recebi amor de muitas pessoas e de muitos modos. Amigos que levarei para sempre. Aprendi que todos temos dores e toda dor deve ser respeitada. A dor terá a intensidade exata da soma de tudo que vivemos, sofremos e sentimos. Comparar dores e frustrações é impossível, mas, quando aprendi que tenho de dar o primeiro passo, o primeiro sorriso, estender a mão, ceder o abraço o ouvido, olhar enxergando o outro de verdade, cheguei a conclusão - VIVER, SOBREVIVER NÃO É TAREFA FÁCIL PARA NINGUÉM. A minha, a sua dor é significativa. Mas, olhe ao redor, quantas dores mais agudas vemos! Entendi que todos temos responsabilidades. Minha família, minha mãe deveriam ser mais afetuosos? Sim. "Amigos" a quem tanto me doei, deveriam ser mais gratos, uma vez que tanto amor, afeto e atenção dispensei? Sim. "Amores" a quem me expus, me entreguei, tentei com todas as forças fazer dar certo, deveriam ao menos ser adultos e dignos? Sim.
Entretanto eis o grande desafio - LAMENTAREI, ME ESQUIVAREI DE AMAR, ENTREGAR-ME, SENTIR, DOAR-ME, SER HUMANO, ACREDITANDO AINDA NO PRÓXIMO? NÃÃÃÃOOOO! Conversando com uma amiga amada e uma pessoa com quem me envolvi, em uma crise total de existência (muito justificada por sinal) me disseram - "NÃO MEREÇO SER AMADO, nascemos e morremos só!". Nego-me em aceitar isso. Merecemos o amor. Nascemos e morremos só, verdade. Mas não estamos condenados a VIVER nesta condição. Continuarei lutando e lidando com a dor, a decepção e a frustração. Viver é arriscar-se, entregar-se.
Como podem ver, tudo é questão de escolha. Em outra ocasião quando quase sucumbi a amargura e a desesperança, uma amada amiga me encarou e de forma firme falou - "você ESCOLHE ser alegre. Está na sua mão!". Verdade! Fiz a escolha, tenho de fazer todos os dias. Certamente para mim de "temperamento nostálgico, em geral quebradiço... viver sozinho seria um duríssimo castigo". Escolhi amar, estar junto, me aproximar de meus semelhantes, independente da escolha de outros.



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